O Irlandês: Scorsese na veia

Assisti O Irlandês.

Era o meu Flamengo e River que esperava com ansiedade. Gostei.

Não é o melhor Scorsese de todos os tempos, mas é um Scorsese legítimo, obra de um artista com pleno domínio de sua arte – em todos os sentidos.

Estão lá os amigos de sempre: De Niro, Pesci, Keitel, a montadora Thelma Schoonmaker. E se todos estão muito bem como atores – eu tinha a impressão que Russell Crowe seria o ator ideal para viver Frank Sheeran, mas De Niro com seu minimalismo deu conta – quem dá um show surpreendente é Joe Pesci. Seu Russ Buffalino é a exata encarnação do homem Buffalino, mas especialmente da figura do capo de tutti capi, do wise man: discreto, contido e implacável.

As questões do filme – obediência, lealdade, redenção – são aquelas que acompanham Scorsese desde sem primeiro trabalho, o longinquou Mean Streets, que já trazia De Niro e Keitel e, se não me engano, Schoonmaker na montagem.

Scorsese, que chegou a pensar em ser padre antes de se decidir pelo cinema, teve uma formação profundamente católica em um meio ambiguamente marcado pela violência e a catolicidade: a Little Italy de NY, que hoje faz parte da Tribeca que dá nome à produtora de De Niro, mas que naquele tempo era uma especie de Rocinha com neve, um gueto pobre e violento. As questões de Scorsese, portanto, não poderiam ser mais católicas. Por mais ateu que ele se pretenda, ele é um autor católico.

Enfim, um filmaço que se assiste com prazer, apesar das 3:30 de duração.

Só uma observação final: a expressão “to paint houses” significa na gíria da bandidagem americana “matar”. E por que “paint houses” ? Por conta do sangue se espalha na parede quando o sujeito leva um tiro a queima-roupa próximo a uma parede. O curioso é que a expressão gerou um dos clichês mais comuns do cinema americano e depois internacional que é o som do tiro seguido de um esguicho de sangue na parede.

No diálogo central do filme (e que dá o título do livro em que ele foi baseado), quando Pacino pergunta a De Niro “Do you paint houses?”, De Niro responde que sim e acrescenta: “And I do my own carpentry too”, a “carpintaria a que se refere faz analogia com “caixão” e significa que, além de matar, ele também se livra dos corpos, se for o caso.