True Detective: uma surpresa e tanto

Como sempre, assisti com atraso à primeira temporada de True Detective. Fiquei encantado e só não maratonei por uma questão de disciplina (ainda que os três últimos episódios foram num tiro só, numa sexta-feira).

A série conseguiu juntar os dois sobrenomes mais complicados de Hollywood numa atuação soberba, não só como atores, mas como produtores executivos. Skin in the game é o que faz a glória e a desgraça da América em geral e da indústria de entretenimento em particular.

Acho que valeria mesmo uma pesquisada para conhecer os bastidores da produção porque a gente sente que rolou uma química profunda entre Woody Harrrelson, Matthew Mcconaughey, Nic Pizzlatto (o roteirista) e Cary Joji Fukunaga ( direitor).

O resultado é uma sequência de episódios com um binômio unidade/ ritmo surpreendente e mesmo raro. O ritmo é cerebral, quase lento para um thriller, e no entanto você fica ali, mesmerizado, sendo lançado de um lado para outro no tempo e no espaço quase sem se dar conta e talvez nem percebendo que a discussão de fundo (digamos assim, a “metafísica do filme”) gira em torno exatamente do tempo e do sentido da vida. A obsessão investigativa de Rust – e rust quer dizer ferrugem – é conscientemente uma busca de sentido, de produzir sentido, algum sentido em meio ao absurdo e à violência do “atoleiro de lágrimas” em que chafurdamos.

Rust é mais um herói em busca da redenção, o tema por excelência da dramaturgia americana. Mas é um dos melhores, um monge do mosteiro do eu sozinho, casto e incansável, não exatamente sem fé, como um niilista europeu, mas movido pelo que talvez se pudesse chamar de “fé negativa” (no sentido em que falamos em “teologia negativa”). No claustro que é o mundo, ele “ora e labora” na “noite escura” naõ em busca de salvação, mas de vingança, como um anjo exterminador. Lembro de um filme de Bresson de que só me ficou uma frase: “Os culpados perdoam; os inocentes, se vingam.” Rust é, nesse sentido, a encarnação da inocência.

Sua jornada não será inútil. E isto não é spoiler.