Imanentizando o esquindô

“Imanentizar o schaton” não é refrão de marchinha de bloco de carnaval, mas foi moda lá pelo fim dos anos 90, quando Olavo de Carvalho ainda fingia ser filósofo – e quem não era de esquerda achava engraçado, como toda piada.

O conceito, idealizado por Voegelin, tem um óbvio caráter negativo. Genericamente significa acreditar (ou fazer acreditar: a nuance é importante) que Papai Noel existe, lançar sua candidatura à presidente e batalhar por ela. Só que, no caso específico, Papai Noel é o Fim do Mundo – um conceito sobrenatural que entre os ateus atende pelo nome de Revolução; e se você é um católico conservador também pode chamá-lo de Revolução Conservadora. Deus Vult!

Voegelin acreditava que a imanentização do escatológico era o princípio que orientava o roteiro revolucionário do nazismo, do comunismo e, claro, dos milenarismos todos. Sua interpretação, suponho, visava a produzir ferramentas para desmontar o monstro.

Mas é evidente que, por engenharia reversa, o princípio também serve para montar o monstro. “Se non è vero, è ben trovato”: o apelo à escatologia, e às consequentes teorias de conspiração que lhe servem de argumento material, é o marco organizador da realidade, ao dividir não só a história (num antes ideal que contrasta com o presente em decadência) como os homens (entre nós, os que “têm olhos para ver” e por isso merecem viver, e eles, os cegos, que por isso merecem morrer).

Esse componente irracional cumpre um objetivo: criar e manter permanentemente excitada uma militância selecionada segundo uma espécie de darwinismo negativo: num ambiente assim, só os imbecis sobrevivem, exatamente os suscetíveis aos apelos da irracionalidade conspiratória-escatológica.

Esse tem sido o papel do Olavo no Brasil nas últimas décadas. Por isso é justo chamá-lo de ideólogo. O que ele faz – ou fez – não é filosofia, mas ideologia no sentido mais vagabundo do termo: o da cooptação.

“O Velho está pirando”, repetem intramuros os acólitos e apaniguados. Não acredito. Olavo não está mais maluco do que sempre foi. O problema é que o discurso do ideólogo da escatologia não pode “desacelerar”. Ao contrário, ele tem de ser mais e mais agressivo para fazer sentido: ou big bang ou big fart. Conhecendo o Olavo, não é dificil antever seus destino.