Ardil-22: um clássico profético dos anos 70

Acabo de rever Catch-22 (Ardil-22), dirigido por Mike Nichols, e lançado em 1970. Acho que essa foi a quarta ou quinta vez que vi o filme, Da primeira, aos 13 anos, talvez, lembro de ter ficado encantado, mas não ter entendido nada. Talvez tenha sido o primeiro filme que vi em que o flash-back não era simplesmente uma mera lembrança especifica relacionada à cena presente.
Depois disso, revi o filme outras vezes, mais velho; li o livro duas vezes, li a continuação, etc. Mas só agora, desta vez, acho que consegui captar a profundidade e a beleza do filme. É um dos mais belos que eu lembro de ter visto. A fotografia é incrível, a direção de câmera idem, a montagem é milimétrica. E os atores, a começar por Alan Arkin estão perfeitos.
Eu diria que visto hoje, o filme soa até profético. O périplo final de Yossarian pela noite romana é um quadro móvel – lembrei da ideia atribuída a Platão – que Brague diz que foi mal interpretada – de que o tempo é a imagem móvel da eternidade. Essa sequência espelha como nenhuma outra essa ideia – um quadro móvel, eu dizia, de Caravaggio.
Assisti no Stremio.
Recomendo o filme, o livro e para um plano geral do que foi essa geração de cineastas americanos dos anos 70, o excelente “Como a geração do sexo, drogas e rock and roll salvou Hollywood”, de Peter Birkind, numa tradução amorosa de Ana Maria Bahiana.

True Detective: uma surpresa e tanto

Como sempre, assisti com atraso à primeira temporada de True Detective. Fiquei encantado e só não maratonei por uma questão de disciplina (ainda que os três últimos episódios foram num tiro só, numa sexta-feira).

A série conseguiu juntar os dois sobrenomes mais complicados de Hollywood numa atuação soberba, não só como atores, mas como produtores executivos. Skin in the game é o que faz a glória e a desgraça da América em geral e da indústria de entretenimento em particular.

Acho que valeria mesmo uma pesquisada para conhecer os bastidores da produção porque a gente sente que rolou uma química profunda entre Woody Harrrelson, Matthew Mcconaughey, Nic Pizzlatto (o roteirista) e Cary Joji Fukunaga ( direitor).

O resultado é uma sequência de episódios com um binômio unidade/ ritmo surpreendente e mesmo raro. O ritmo é cerebral, quase lento para um thriller, e no entanto você fica ali, mesmerizado, sendo lançado de um lado para outro no tempo e no espaço quase sem se dar conta e talvez nem percebendo que a discussão de fundo (digamos assim, a “metafísica do filme”) gira em torno exatamente do tempo e do sentido da vida. A obsessão investigativa de Rust – e rust quer dizer ferrugem – é conscientemente uma busca de sentido, de produzir sentido, algum sentido em meio ao absurdo e à violência do “atoleiro de lágrimas” em que chafurdamos.

Rust é mais um herói em busca da redenção, o tema por excelência da dramaturgia americana. Mas é um dos melhores, um monge do mosteiro do eu sozinho, casto e incansável, não exatamente sem fé, como um niilista europeu, mas movido pelo que talvez se pudesse chamar de “fé negativa” (no sentido em que falamos em “teologia negativa”). No claustro que é o mundo, ele “ora e labora” na “noite escura” naõ em busca de salvação, mas de vingança, como um anjo exterminador. Lembro de um filme de Bresson de que só me ficou uma frase: “Os culpados perdoam; os inocentes, se vingam.” Rust é, nesse sentido, a encarnação da inocência.

Sua jornada não será inútil. E isto não é spoiler.

Tarantino: a estetização da imbecilidade

Assisti ontem no Stremio Era uma vez em Holywood.

Estou convencido de que o Tarantino é autista.

Ele é capaz de memorizar cenas de cinema, movimentos de câmera de um modo incomum, mas é absolutamente incapaz de sintetizar emoções, sentimentos, argumentos complexos. O verbo perfeito para traduzir essa ideia é o inglês “to realize” com todas as suas ressonâncias em português. Ele é incapaz de realizar emoções. É impressionante. É tudo de uma superficialidade que “uma formiguinha atravessaria com água pelas canelas”, como diria Nelson Rodrigues.

O filme chega ser um insulto ao brincar com um dos crimes mais chocantes e brutais da segunda metade do século passado. Quem viu a série Mindhunters lembra que a chacina deu impulso ao projeto do policial que insistia que o crime havia alcançado um novo patamar.

Tarantino transforma o crime num conto de fadas. A mim denota uma completa incapacidade de lidar com a realidade, com emoções ambíguas e complexas.

Enfim, uma lamentável perda de tempo.

Por acaso, agora há pouco, passando os olhos pela comunidade da rede social Ello percebi que o Tarantino não é a exceção, mas a regra.

É apavorante.

O Irlandês: Scorsese na veia

Assisti O Irlandês.

Era o meu Flamengo e River que esperava com ansiedade. Gostei.

Não é o melhor Scorsese de todos os tempos, mas é um Scorsese legítimo, obra de um artista com pleno domínio de sua arte – em todos os sentidos.

Estão lá os amigos de sempre: De Niro, Pesci, Keitel, a montadora Thelma Schoonmaker. E se todos estão muito bem como atores – eu tinha a impressão que Russell Crowe seria o ator ideal para viver Frank Sheeran, mas De Niro com seu minimalismo deu conta – quem dá um show surpreendente é Joe Pesci. Seu Russ Buffalino é a exata encarnação do homem Buffalino, mas especialmente da figura do capo de tutti capi, do wise man: discreto, contido e implacável.

As questões do filme – obediência, lealdade, redenção – são aquelas que acompanham Scorsese desde sem primeiro trabalho, o longinquou Mean Streets, que já trazia De Niro e Keitel e, se não me engano, Schoonmaker na montagem.

Scorsese, que chegou a pensar em ser padre antes de se decidir pelo cinema, teve uma formação profundamente católica em um meio ambiguamente marcado pela violência e a catolicidade: a Little Italy de NY, que hoje faz parte da Tribeca que dá nome à produtora de De Niro, mas que naquele tempo era uma especie de Rocinha com neve, um gueto pobre e violento. As questões de Scorsese, portanto, não poderiam ser mais católicas. Por mais ateu que ele se pretenda, ele é um autor católico.

Enfim, um filmaço que se assiste com prazer, apesar das 3:30 de duração.

Só uma observação final: a expressão “to paint houses” significa na gíria da bandidagem americana “matar”. E por que “paint houses” ? Por conta do sangue se espalha na parede quando o sujeito leva um tiro a queima-roupa próximo a uma parede. O curioso é que a expressão gerou um dos clichês mais comuns do cinema americano e depois internacional que é o som do tiro seguido de um esguicho de sangue na parede.

No diálogo central do filme (e que dá o título do livro em que ele foi baseado), quando Pacino pergunta a De Niro “Do you paint houses?”, De Niro responde que sim e acrescenta: “And I do my own carpentry too”, a “carpintaria a que se refere faz analogia com “caixão” e significa que, além de matar, ele também se livra dos corpos, se for o caso.

Dicas de ergonometria

Cheguei aos vídeos 1 e 2 dessa moça no You Tube pesquisando sobre cadeiras e aprendi com ela uma solução parcial para o meu problema de postura: aproximar o monitor do rosto. Desse modo, a minha tendência não é mais me inclinar para frente, forçando a cervical e desarranjando dorsal e lombar, mas recuar contra o encosto, me alinhando inteiro.

Outra dica – essa aprendi sozinho: se vocẽ passa como eu horas por dia diante de um monitor, não use óculos multifocais. Faça óculos monofocais de média distância, e não economize nas lentes. Eu escolhi as Zeiss, mas há outras.

Suporte de celular

Eu vivia sonhando com um desses, até que finalmente o encontrei materializado numa prateleira da Miniso por R$ 19.90.

Vale cada centavo. Ele possui umas borrachas quase invisíveis na dobra de apoio que impedem o celular de correr quando usamos o touchscreen. E é sólido e proporcional o bastante para suportar até um tablet sem fazer feio.

Uberização e moedas digitais

É incrível a crescente “uberização” das relações de trabalho. Eu tenho a impressão de que se está reinventando – por experiência e erro – o conceito de GUILDA, que era o nome genérico dado às corporações de ofício medievais.

Eu uso Uber e 99, e converso muito com os motoristas. Percebo claramente esse espírito corporativo. Eles se sentem participando de um “conceito”. O próximo passo, podem apostar, será alguma forma de plano de previdência e saúde – privado e internacional – baseado em MOEDAS DIGITAIS.

Eu tenho usado também o Fiverr. O espírito é o mesmo, ainda que menos evidente à primeira vista. Em comum, o respeito às regras estabelecidas e ao cliente para não ser desligado da guilda.

Se pensarmos no rumo que o trabalho vai tomando no mundo digital-globalizado, nada impede que alguém participe das duas guildas – o Fiverr e o Uber, por exemplo – e dirija um táxi nos momentos em que não tem uma ilustração para fazer.

E, mais interessante, que participe dos fundos de previdência e saúde de cada corporação.

Por outro lado, sendo inclusive monetariamente digital, nada impede que o sujeito que participe da guilda trabalhe em diferentes partes do mundo, ou comece trabalhando no Brasil e acabe se aposentando na Tailândia.

Teríamos assim uma especie de internacionalização real e geral da economia, uma verdadeira globalização de serviços e salários.

Estou cada vez mais convencido que o futuro são as moedas digitais combinadas com as novas guildas que irão substituir os Estados falidos.

Para morrer de rir

Tenho passado vergonha em casa às gargalhadas tarde da noite por conta da série do Netflix “O Método Kominsky”, com Michael Douglas e Alan Arkin. Suspeito que há piadas que só quem tenha mais de 50 anos entenderá. Mesmo assim, é engraçadíssima. E os episódios têm o bom senso de durar só meia hora.

Canetas-tinteiro

Gosto muito de canetas. Gosto de escrever à mão, ainda que nunca vá muito além de notas, lembretes, bilhetinhos. Mas acho triste que a gente tenha perdido o hábito.

A coisa já ficara feita quando popularizaram a esferográfica. Explico: a caneta-tinteiro, mesmo essas de cartucho, exige calma, o correto posicionamento da pena, a pressão adequada dela sobre o papel, uma certa sincronia entre pensamento e escrita. Enfim, o uso da caneta-tinteira faz do próprio ato de escrever uma arte. Aliás, a caligrafia sempre foi uma arte e até hoje, pelo que ouvi dizer, a qualidade do desenho dos ideogramas é indissociável do conteúdo do poema no haicai japonês.

Óculos e relógio herdados de meu amigo Sérgio Ilha. Canivete e Parker azul e prata herdados de meu pai. Esferográfica em ouro, presente da Cláudia Barcelos. A Porsche platina com pena de ouro, presente da Paloma Perez. As Stabilo coloridas eu mesmo comprei.

A mim, caneta-tinteiro lembra meu pai que só largou sua Parker acho que 45 muito tento depois do advento das esferográficas. Essa caneta perdeu-se, mas no inventário das coisas de minha mãe, achei uma outra Parker, mais modesta que eu o presenteei num longínquo e esquecido Dia dos Pais. Sei porque restou o bilhete-dedicatória escrito com letrinha de menino.

Pois agora Paloma me presenteou também com uma Porsche. Linda!

Se você fizer uma pesquisa na internet, vai descobrir que caneta-tinteiro é mais uma dessas discretas paixões capazes de mobilizar um bando de gente mundo afora. Acho essa umas das graças da rede.

Este site é bem legal, mas há milhares de outros. Também é legal circular pelo E-Bay para comprar ou simplesmente cotar canetas.