Não existe tratamento precoce de Covid

Há uma confusão terrível entre TRATAMENTO precoce e ABORDAGEM precoce. Tratamento supõe uma chance altíssima de cura. Mais ou menos quando tomamos uma aspirina para dor de cabeça.

Abordagem significa a adoção de protocolos que podem aumentar as chances de cura e cuja adoção, portanto, demanda uma avaliação caso a caso de ganhos e riscos. Do que li até agora, a adoção da HCQ precoce aumentaria em de 20% a 30% as chances do portador de Covid de não desenvolver os sintomas.

Claro que é difícil estabelecer com precisão o quanto é causalidade o quanto é correlação, levando em conta que o índice de letalidade e desenvolvimento da doença é pequeno em comparação com o seu alto índice de transmissão. Mas num quadro de pandemia é mais do que justo que os médicos adotem os protocolos baseados na experiência clinica e na avaliação dos pacientes.

Dito isso, falar em TRATAMENTO precoce, em CURA é de uma estupidez desinformativa criminosa.

Sobre o perenialismo caipira que nos assola

Saiu finalmente em português este livro, essencial para começar a entender o BOLSOLAVISMO – que por mais tosco que seja em seu arremedo ao projeto a que se subordina, é a parte que nos coube nesse latifúndio de miséria e absurdo.

Teitelbaum centra o livro na figura de Steve Bannon, mas seu foco é o Perenialismo em suas diversas manifestações locais como a ideologia unificadora dos movimentos de extrema-direita que emergiram na política na última década.

Bannon seria não exatamente o líder, mas certamente o mais poderoso e mais bem equipado de dinheiro e relações para cumprir esse papel num grupo de egos vastos e inconsistentes, que reúne gente como Dugin e Olavo para citar só os mais conhecidos.

Olavo nem aparece assim tão mal pintado como reclama, mas certamente Teitelbaum torna público muito mais do que Olavo gostaria.

Vale a pena ler. Há versos digitais disponíveis em inglês para quem souber procurar e preferir alpicar seu dinheiro em livros mais relevantes.

Imanentizando o esquindô

“Imanentizar o schaton” não é refrão de marchinha de bloco de carnaval, mas foi moda lá pelo fim dos anos 90, quando Olavo de Carvalho ainda fingia ser filósofo – e quem não era de esquerda achava engraçado, como toda piada.

O conceito, idealizado por Voegelin, tem um óbvio caráter negativo. Genericamente significa acreditar (ou fazer acreditar: a nuance é importante) que Papai Noel existe, lançar sua candidatura à presidente e batalhar por ela. Só que, no caso específico, Papai Noel é o Fim do Mundo – um conceito sobrenatural que entre os ateus atende pelo nome de Revolução; e se você é um católico conservador também pode chamá-lo de Revolução Conservadora. Deus Vult!

Voegelin acreditava que a imanentização do escatológico era o princípio que orientava o roteiro revolucionário do nazismo, do comunismo e, claro, dos milenarismos todos. Sua interpretação, suponho, visava a produzir ferramentas para desmontar o monstro.

Mas é evidente que, por engenharia reversa, o princípio também serve para montar o monstro. “Se non è vero, è ben trovato”: o apelo à escatologia, e às consequentes teorias de conspiração que lhe servem de argumento material, é o marco organizador da realidade, ao dividir não só a história (num antes ideal que contrasta com o presente em decadência) como os homens (entre nós, os que “têm olhos para ver” e por isso merecem viver, e eles, os cegos, que por isso merecem morrer).

Esse componente irracional cumpre um objetivo: criar e manter permanentemente excitada uma militância selecionada segundo uma espécie de darwinismo negativo: num ambiente assim, só os imbecis sobrevivem, exatamente os suscetíveis aos apelos da irracionalidade conspiratória-escatológica.

Esse tem sido o papel do Olavo no Brasil nas últimas décadas. Por isso é justo chamá-lo de ideólogo. O que ele faz – ou fez – não é filosofia, mas ideologia no sentido mais vagabundo do termo: o da cooptação.

“O Velho está pirando”, repetem intramuros os acólitos e apaniguados. Não acredito. Olavo não está mais maluco do que sempre foi. O problema é que o discurso do ideólogo da escatologia não pode “desacelerar”. Ao contrário, ele tem de ser mais e mais agressivo para fazer sentido: ou big bang ou big fart. Conhecendo o Olavo, não é dificil antever seus destino.

Amargo Regresso e The Fog of War

Acabei de assistir a mais um dos clássicos do anos 60/70: Coming Home/ Amargo Regresso, do Hal Ashby, um diretor um tanto esquecido, mas de uma sensibilidade enorme.

Conhecido por sua habilidade como montador, ele é também um puta diretor de atores: Jon Voight, Jane Fonda e Bruce Dern estão simplesmente soberbos. Filmaço. E a trilha também é o máximo. E

é mais um filme em que alguém se atira no mar nu ou sai correndo em direção ao infinito. É bem o clima daqueles anos em que a humanidade se pôs numa encruzilhada perigosíssima e da qual ainda está saindo.

Para entender esse filme, essa época e a complexidade do que estava em jogo é preciso também ver um documentário que de tão essencial já está no acervo da Biblioteca do Congresso americano: The Fog Of War, uma reflexão autobiográfica de Robert MacNamara no final da vida sobre sua atuação na Segunda Guerra Mundial e depois como Secretário de Defesa de Kennedy e Lyndon Johnson no tempo da Guerra do Vietnã, que pe o tema de Amargo Regresso. Um documento histórico de altíssimo valor.

Assisti os dois filme no Stremio – que recomendo a todos os cinéfilos.

Ardil-22: um clássico profético dos anos 70

Acabo de rever Catch-22 (Ardil-22), dirigido por Mike Nichols, e lançado em 1970. Acho que essa foi a quarta ou quinta vez que vi o filme, Da primeira, aos 13 anos, talvez, lembro de ter ficado encantado, mas não ter entendido nada. Talvez tenha sido o primeiro filme que vi em que o flash-back não era simplesmente uma mera lembrança especifica relacionada à cena presente.
Depois disso, revi o filme outras vezes, mais velho; li o livro duas vezes, li a continuação, etc. Mas só agora, desta vez, acho que consegui captar a profundidade e a beleza do filme. É um dos mais belos que eu lembro de ter visto. A fotografia é incrível, a direção de câmera idem, a montagem é milimétrica. E os atores, a começar por Alan Arkin estão perfeitos.
Eu diria que visto hoje, o filme soa até profético. O périplo final de Yossarian pela noite romana é um quadro móvel – lembrei da ideia atribuída a Platão – que Brague diz que foi mal interpretada – de que o tempo é a imagem móvel da eternidade. Essa sequência espelha como nenhuma outra essa ideia – um quadro móvel, eu dizia, de Caravaggio.
Assisti no Stremio.
Recomendo o filme, o livro e para um plano geral do que foi essa geração de cineastas americanos dos anos 70, o excelente “Como a geração do sexo, drogas e rock and roll salvou Hollywood”, de Peter Birkind, numa tradução amorosa de Ana Maria Bahiana.

True Detective: uma surpresa e tanto

Como sempre, assisti com atraso à primeira temporada de True Detective. Fiquei encantado e só não maratonei por uma questão de disciplina (ainda que os três últimos episódios foram num tiro só, numa sexta-feira).

A série conseguiu juntar os dois sobrenomes mais complicados de Hollywood numa atuação soberba, não só como atores, mas como produtores executivos. Skin in the game é o que faz a glória e a desgraça da América em geral e da indústria de entretenimento em particular.

Acho que valeria mesmo uma pesquisada para conhecer os bastidores da produção porque a gente sente que rolou uma química profunda entre Woody Harrrelson, Matthew Mcconaughey, Nic Pizzlatto (o roteirista) e Cary Joji Fukunaga ( direitor).

O resultado é uma sequência de episódios com um binômio unidade/ ritmo surpreendente e mesmo raro. O ritmo é cerebral, quase lento para um thriller, e no entanto você fica ali, mesmerizado, sendo lançado de um lado para outro no tempo e no espaço quase sem se dar conta e talvez nem percebendo que a discussão de fundo (digamos assim, a “metafísica do filme”) gira em torno exatamente do tempo e do sentido da vida. A obsessão investigativa de Rust – e rust quer dizer ferrugem – é conscientemente uma busca de sentido, de produzir sentido, algum sentido em meio ao absurdo e à violência do “atoleiro de lágrimas” em que chafurdamos.

Rust é mais um herói em busca da redenção, o tema por excelência da dramaturgia americana. Mas é um dos melhores, um monge do mosteiro do eu sozinho, casto e incansável, não exatamente sem fé, como um niilista europeu, mas movido pelo que talvez se pudesse chamar de “fé negativa” (no sentido em que falamos em “teologia negativa”). No claustro que é o mundo, ele “ora e labora” na “noite escura” naõ em busca de salvação, mas de vingança, como um anjo exterminador. Lembro de um filme de Bresson de que só me ficou uma frase: “Os culpados perdoam; os inocentes, se vingam.” Rust é, nesse sentido, a encarnação da inocência.

Sua jornada não será inútil. E isto não é spoiler.

Tarantino: a estetização da imbecilidade

Assisti ontem no Stremio Era uma vez em Holywood.

Estou convencido de que o Tarantino é autista.

Ele é capaz de memorizar cenas de cinema, movimentos de câmera de um modo incomum, mas é absolutamente incapaz de sintetizar emoções, sentimentos, argumentos complexos. O verbo perfeito para traduzir essa ideia é o inglês “to realize” com todas as suas ressonâncias em português. Ele é incapaz de realizar emoções. É impressionante. É tudo de uma superficialidade que “uma formiguinha atravessaria com água pelas canelas”, como diria Nelson Rodrigues.

O filme chega ser um insulto ao brincar com um dos crimes mais chocantes e brutais da segunda metade do século passado. Quem viu a série Mindhunters lembra que a chacina deu impulso ao projeto do policial que insistia que o crime havia alcançado um novo patamar.

Tarantino transforma o crime num conto de fadas. A mim denota uma completa incapacidade de lidar com a realidade, com emoções ambíguas e complexas.

Enfim, uma lamentável perda de tempo.

Por acaso, agora há pouco, passando os olhos pela comunidade da rede social Ello percebi que o Tarantino não é a exceção, mas a regra.

É apavorante.

O Irlandês: Scorsese na veia

Assisti O Irlandês.

Era o meu Flamengo e River que esperava com ansiedade. Gostei.

Não é o melhor Scorsese de todos os tempos, mas é um Scorsese legítimo, obra de um artista com pleno domínio de sua arte – em todos os sentidos.

Estão lá os amigos de sempre: De Niro, Pesci, Keitel, a montadora Thelma Schoonmaker. E se todos estão muito bem como atores – eu tinha a impressão que Russell Crowe seria o ator ideal para viver Frank Sheeran, mas De Niro com seu minimalismo deu conta – quem dá um show surpreendente é Joe Pesci. Seu Russ Buffalino é a exata encarnação do homem Buffalino, mas especialmente da figura do capo de tutti capi, do wise man: discreto, contido e implacável.

As questões do filme – obediência, lealdade, redenção – são aquelas que acompanham Scorsese desde sem primeiro trabalho, o longinquou Mean Streets, que já trazia De Niro e Keitel e, se não me engano, Schoonmaker na montagem.

Scorsese, que chegou a pensar em ser padre antes de se decidir pelo cinema, teve uma formação profundamente católica em um meio ambiguamente marcado pela violência e a catolicidade: a Little Italy de NY, que hoje faz parte da Tribeca que dá nome à produtora de De Niro, mas que naquele tempo era uma especie de Rocinha com neve, um gueto pobre e violento. As questões de Scorsese, portanto, não poderiam ser mais católicas. Por mais ateu que ele se pretenda, ele é um autor católico.

Enfim, um filmaço que se assiste com prazer, apesar das 3:30 de duração.

Só uma observação final: a expressão “to paint houses” significa na gíria da bandidagem americana “matar”. E por que “paint houses” ? Por conta do sangue se espalha na parede quando o sujeito leva um tiro a queima-roupa próximo a uma parede. O curioso é que a expressão gerou um dos clichês mais comuns do cinema americano e depois internacional que é o som do tiro seguido de um esguicho de sangue na parede.

No diálogo central do filme (e que dá o título do livro em que ele foi baseado), quando Pacino pergunta a De Niro “Do you paint houses?”, De Niro responde que sim e acrescenta: “And I do my own carpentry too”, a “carpintaria a que se refere faz analogia com “caixão” e significa que, além de matar, ele também se livra dos corpos, se for o caso.

Dicas de ergonometria

Cheguei aos vídeos 1 e 2 dessa moça no You Tube pesquisando sobre cadeiras e aprendi com ela uma solução parcial para o meu problema de postura: aproximar o monitor do rosto. Desse modo, a minha tendência não é mais me inclinar para frente, forçando a cervical e desarranjando dorsal e lombar, mas recuar contra o encosto, me alinhando inteiro.

Outra dica – essa aprendi sozinho: se vocẽ passa como eu horas por dia diante de um monitor, não use óculos multifocais. Faça óculos monofocais de média distância, e não economize nas lentes. Eu escolhi as Zeiss, mas há outras.

Suporte de celular

Eu vivia sonhando com um desses, até que finalmente o encontrei materializado numa prateleira da Miniso por R$ 19.90.

Vale cada centavo. Ele possui umas borrachas quase invisíveis na dobra de apoio que impedem o celular de correr quando usamos o touchscreen. E é sólido e proporcional o bastante para suportar até um tablet sem fazer feio.